Por que as “soluções” em âmbito individual não estancam o sangue das organizações?

25 de Novembro, 2020 AVM Advogados
Laptop sobre a mesa exibindo uma notícia na tela, com uma caneca metálica do lado esquerdo e papeis, um cubo verde e parte de um laptop do lado direito

Confira a seguir, o artigo da Dra. Julise Lemonje, advogada associada, vinculada ao Núcleo de Pesquisa do escritório AVM Advogados, e psicóloga, publicado originalmente no portal Sul21, no dia 24 de novembro.

O texto traz uma reflexão sobre o trágico incidente ocorrido no Carrefour na semana passada, que ceifou a vida de um homem negro, relacionando o caso com a responsabilização exclusiva do empregado e a violência presente no ambiente laboral, através do assédio moral e das políticas de gestão das organizações. Boa leitura!

O espancamento, por funcionários de segurança terceirizados do Carrefour, ceifou a vida de um homem negro na noite de 19.11.2020. Nota-se que o nome da rede de supermercados está longe de ser inédito quando se trata de casos de violência dentro dos próprios estabelecimentos, remetendo-nos ao episódio do cachorro morto “a pauladas” e do cadáver que, para não atrapalhar as vendas, iniciara a decomposição com a loja em funcionamento, sob a proteção de grandes guarda-sóis (que quiçá já foram vendidos).

Além da explícita indiferença a parâmetros mínimos de respeito à vida, os episódios guardam semelhança no que tange às notas emitidas pela empresa. Como é de praxe após escândalos e denúncias, as organizações voltam-se ao individual. O Carrefour comunicou, ainda na sexta-feira (20.11.2020), o imediato desligamento do empregado que coordenava o estabelecimento no momento do assassinato – afinal, os consumidores odeiam impunidade.

Ocorre que a incidência destes episódios de violência extrema diz respeito a algo maior – e mais complexo – do que o “mau comportamento” de funcionário x ou y. O rápido deslocamento da crise ao âmbito individual – e aqui, podemos extrapolar os portões da rede de supermercados, para abranger o funcionamento padrão de grandes corporações – busca ocultar o que os escândalos desvelam: a sustentação dos atos violentos interpessoais pela própria gestão do trabalho.

As agressões desmensuradas, chocantes e dignas de manchete trazem à baila a permanente manutenção de violência sutis, destas difíceis de comprovar e que demandam maior atenção e sensibilidade. Mas essa discussão não consegue espaço, e seguimos observando os programas contra assédio se dirigirem exclusivamente às medidas individuais, ocupando não poucos parágrafos para descrever, minuciosamente, canais de denúncia – que fique claro: para que denuncie-se o empregado, jamais a gestão – e de mecanismos de punição: novamente, do empregado agressor.

A responsabilização exclusiva do empregado, em sua individualidade, passa ao largo de tudo o que ampara a conduta agressiva e não estanca o consumo de ansiolíticos, a depressão, o suicídio no trabalho e o sangue. Não se perguntar em que medida o agressor fora formado, incentivado – e também agredido – pelas políticas de gestão da organização é mais uma vez deixar de perceber que o ambiente de trabalho é muito mais do que o mero cenário da violência. É mais simples surpreender-se com o monstro – subitamente? – encontrado nos quadros funcionais (por vezes, de suas terceirizadas) do que compreender do que se alimentou.

O percursor da Psicodinâmica do Trabalho, Christophe Dejours, é certeiro ao acusar processos de banalização do mal que desdramatizam injustiça, violência e sofrimento no trabalho. É nos atos corriqueiros que vai se encontrar a origem dos episódios sangrentos e racistas. É na elevação da produtividade em detrimento da dignidade do trabalhador que se respalda a indiferença ao outro. A instrumentalização do humano em favor do lucro e os imperativos expansionistas sustentam o ambiente violento e formam seus agentes.

As “soluções” restritas ao âmbito individual podem nos acalmar, podem arquivar casos de assédio moral, sexual e físico, bem como episódios que explicitam racismo e discriminação, mas não alcançam os muitos elementos psicossociais e políticos que atravessam toda violência dentro de uma organização. Nesse momento, interessa não apenas questionar por que eles não pararam de bater no João Alberto, mas também perguntar por que não podemos fechar o comércio por causa de um cadáver no chão – e muito menos por conta de uma pandemia.

Por Julise Lemonje - OAB/RS 113.555.

Fonte: Portal Sul21
imagem: Freepik e Portal Sul21

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